São Tomé e Príncipe: uma peça central no xadrez de Pequim?

mapa-sao-tome-e-principeA China prepara-se para realizar o seu primeiro investimento directo em infra-estruturas no pequeno arquipélago de São Tomé e Príncipe. Nomeadamente, a construção e concessão de um porto de águas profundas dotado com infra-estruturas de nível mundial de forma
a servir as necessidades logísticas do Golfo da Guiné.

O investimento em infra-estruturas na costa atlântica de África coloca também esta região no âmbito da iniciativa “Uma Cintura, Uma Rota”. Pequim tem contribuído activamente para o desenvolvimento de portos na região e concluiu a linha férrea que liga a costa atlântica de Angola — o porto de Lobito —, à fronteira com a Republica Democrática do Congo, a qual irá subsequentemente ligar à linha Angola-Zâmbia e Tanzânia-Zâmbia.

Seguramente que Pequim reconhece o valor geoestratégico de São Tomé e Príncipe, tal como os EUA já o fizeram. Durante a década de 2000, os EUA demonstraram interesse em estabelecer uma base naval de águas profundas em São Tomé e Príncipe, motivados pela sua localização geográfica e por nessa altura cerca de 30% das suas importações de petróleo transitarem por águas territoriais são-tomenses. Um oficial norte-americano chegou a descrever São Tomé e Príncipe como uma “outra Diego Garcia”, referindo-se à ilha estrategicamente localizada no Oceano Índico e que acolhe a base militar Camp Justice.

Se os EUA ponderaram essa possibilidade, porque não a China? De facto, Pequim tem vindo a assumir uma linha de acção estratégica semelhante à dos EUA, isto é, a estabelecer postos estratégicos pelo mundo, garantindo a Pequim uma maior capacidade de projecção de várias formas de poder, para além do militar. Essas formas de poder operam como ferramentas políticas e económicas que podem ser usadas para construir e manter alianças e garantir acesso privilegiado a outros mercados, recursos e oportunidades de investimento.

Ora, considerando as ambições de Pequim em se tornar numa potência ao nível dos EUA, a sua crescente dependência de energia e outros recursos naturais, bem como o aprofundamento dos seus interesses na região do Golfo da Guiné e Atlântico Sul, não surpreenderá se Pequim decidir estabelecer aí uma presença militar, em particular num país tão geograficamente estratégico e com garantias de estabilidade política como São Tomé e Príncipe.

Inevitavelmente, o aumento da influência e poder da China nessas regiões será encarado como uma ameaça e um desafio aos interesses dos EUA e de outras potências ocidentais. Urge que o Ocidente actue estrategicamente de acordo com essa expansão, pois dificilmente Pequim abandonará as suas aspirações. São Tomé e Príncipe apresenta-se, neste contexto, como uma peça de imenso valor estratégico num xadrez mundial em constante mudança.

Teremos São Tomé e Príncipe a afirmar-se como um game-changer para a estratégia global da China? Esperemos para ver.

Sobre Gustavo Plácido

An independent political and security risk analyst focused on Lusophone Sub-Saharan Africa. He covers Angola and Mozambique for Horizon Client Access.
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