Pentágono propõe nova arquitectura de bases militares – foco em África

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AFP/Getty Images

O The New York Times publicou um artigo em que afirma que o Pentágono apresentou um novo plano à Casa Branca que visa estabelecer uma rede (“String”) de bases militares em África, no Sudoeste Asiático e no Médio Oriente.

 

De acordo com oficiais do Pentágono, essa rede servirá como hubs para as Operações Especiais e operacionais de intelligence para levarem a cabo operações anti-terrorismo. Esta nova abordagem será útil no sentido de reduzir os custos com operações e contingentes militares alem-fronteiras, estimando-se que o seu custo se situe na ordem dos “poucos milhões de dólares,” nomeadamente para pagar os salários do pessoal militar, equipamento e algumas melhorias nas bases.

O plano estabece que essas bases poderão ser usadas para o estabelecimento de um sistema coerente que garanta maior eficácia e eficiência na recolha de informações e na execução de ataques contra ameaças terroristas a nível regional, nomeadamente grupos afiliados com o Daesh – pelo menos oito grupos militantes declararam lealdade aos seus lideres – e a Al-Qaeda.

O plano garantirá ainda que as bases recebam financiamento de um modo mais regular, bem como alargar e tornar mais previsível a mobilização de tropas, nomeadamente de Operações Especiais, as quais são em regra actualmente destacadas rotativamente.

No que respeita ao continente africano, a nova arquitectura incluirá o alargamento da base norte-americana existente no Djibouti e a construção de instalações mais básicas (“Spokes”) no Níger e Camarões, a partir dos quais já realiza, ou se está prestes a realizar, operações de vigilância e reconhecimento com drones não armados. Poderão outros países, a partir dos quais os EUA já operam militarmente  (como a Etiópia, o Chade e o Burkina-Faso) ser incluídos nesta abordagem, numa fase posterior? Why not?

O plano estabelece ainda que qualquer base norte-americana em África terá aproximadamente 500 efectivos militares, o que garante um certo de grau de resposta satisfatória quando necessário. Contudo, importa notar que o tamanho das bases (calculo que em termos de infraestruturas e de efectivo militar) em África dependerá do nível de ameaça regional.

Ora, como avaliar o grau de ameaça numa determinada região quando é incerto o nível de filiação, lealdade e capacidade bélica da multitude de grupos militantes existentes na região? Eis um desafio complicado que dependerá de uma cooperação mais aprofundada entre as várias agências de defesa e segurança norte-americanas, tal como entre essas e autoridades em países cujos serviços de informações e militares são pouco confiáveis (pelo menos no que respeita a informação que produzem).

Um dos casos emblemáticos da dificuldade em se aferir o grau de filiação e de se recolher informação fidedigna e consensual é o Boko Haram – declarou lealdade ao Daesh, mas o grau ou veracidade desse relacionamento é, em larga medida, incerto –  e a Nigéria – cujos serviços de segurança e de informações mostraram já varias vezes um grau alarmante de má preparação e incompetência, ao que acresce a sua cooperação inconstante, frágil e ineficiente com os Estados vizinhos que participam na campanha multinacional contra o grupo.

O Pentágono sugere ainda que não será de excluir que a rede de bases abranja a região da África Ocidental, sendo no entanto provável que o principal hub focado na região será muito provavelmente localizado no Sul da Europa. Teremos a Base Aérea de Morón, em Espanha, a assumir essa função? Muito provavelmente. Não acredito ser possível que os Açores e a Base das Lajes sejam destacado para tal, sendo que não será de descartar que assuma um papel relevante nesse contexto.

Seguramente que o extremismo violento e os grupos terroristas activos em África representam uma ameaça regional, continental e global. Mas será essa ameaça suficiente, pelo menos por enquanto, para o estabelecimento e alargamento de bases em África? Não será o crescente envolvimento de potencias emergentes, nomeadamente a China, no continente africano a grande motivação por detrás desta viragem militar dos EUA para o continente africano?

De facto, a China, para alem da sua “ofensiva” económica no continente africano, está prestes a iniciar a construção da sua primeira base militar no estrangeiro precisamente em África, no Djibouti,  onde os EUA tem a sua principal base militar no continente. Acresce que Pequim tem vindo, ao longo dos últimos anos, a aumentar a sua presença militar em África, como missões de manutenção de paz da ONU (nomeadamente em países sob conflito onde tem vastos interesses económicos, como o Sudão do Sul), prometendo expandir esse seu papel em Setembro de 2015, e na operação naval internacional anti-pirataria nos mares do Corno de África.

 

Sobre Gustavo Plácido

An independent political and security risk analyst focused on Lusophone Sub-Saharan Africa. He covers Angola and Mozambique for Horizon Client Access.
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