Gâmbia: a nova República Islâmica

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O meu mais recente artigo para o Instituto Português de Relações Internacionais e Segurança (IPRIS): Gâmbia: fazer novos amigos, mas com riscos?

No dia 11 de Dezembro de 2015, o Presidente da Gâmbia, Yahya Jammeh, proclamou o país como “uma República Islâmica”.

Quais foram as motivações para esse anuncio?

O estabelecimento da República Islâmica da Gâmbia garante a Jammeh uma dose crucial de legitimidade religiosa (…) [a qual] reforça os seus poderes políticos, podendo Jammeh usar a Sharia para silenciar a oposição, algo que poderá ser útil tendo em conta as eleições presidenciais agendadas para Dezembro de 2016.

Por outro lado, visa também contrariar o crescente isolamento internacional e as dificuldades económico-financeiras que daí decorrem. Desde que chegou ao poder em 1994, após um golpe de Estado, o regime do Presidente Jammeh tem sido acusado de constantes violações de direitos humanos — perseguição política, ilegalização da homossexualidade, entre outros —, o que por sua vez tem denegrido a sua imagem internacional. O abandono da Commonwealth em 2013, bem como a ameaça de abandonar a União Africana em Maio de 2015, agravaram essa tendência.

Ora, considerando o contexto internacional adverso, o regime tem vindo a procurar novos apoios e afirmar-se como uma potência sub-regional — tem vindo a perder influência sobre a Guiné-Bissau e Casamança para o Senegal. Dito isto, a politização da identidade islâmica e outras medidas como a retórica anti-LGBT e anti-ocidental, servem um propósito particular nesse sentido: aproximar e reforçar os laços com o mundo islâmico, nomeadamente com o Médio Oriente.

Tal poderá ter consequências geopolíticas profundas na África Ocidental, nomeadamente no que respeita à ligação entre o terrorismo transnacional e potências árabes.

De facto, os países mais frágeis da África Ocidental — incluindo a Gâmbia — apresentam uma combinação de factores que faz deles terreno fértil para a radicalização religiosa e extremismo violento, tais como a corrupção endémica, níveis elevados de desemprego e uma vasta população jovem com poucas perspectivas de futuro. Por outro lado, a Gâmbia é um pedaço de território rodeado pelo Senegal, o qual por sua vez partilha fronteiras porosas com uma região onde o extremismo islâmico tem vindo a expandir-se e com países que enfrentam ameaças jihadistas internas — a Mauritânia e o Mali. Nenhum dos países regionais tem instituições e forças de segurança suficientemente preparadas e capacitadas para controlar as respectivas fronteiras.

A isto acresce o impacto da Operação Barkhane, uma operação militar anti-insurgência liderada pela França e que actua na região da África Ocidental e Sahel. Esta deu um duro golpe na capacidade operacional e objectivos das organizações jihadistas no norte do Mali, forçando-os a procurar fontes adicionais de financiamento e outros centros operacionais nas fronteiras porosas a sul. Ora, os recentes ataques na capital do Mali e do Burkina Faso demonstram que essas organizações pretendem expandir-se para os Estados frágeis da África Ocidental.

Tendo em conta a ameaça da expansão do jihadismo para a África Ocidental, a estratégia do regime de Jammeh poderá estar direccionada para evitar ataques em território nacional. Contudo, apesar do potencial de sucesso, existe o risco de essas organizações olharem para a Gâmbia como uma alternativa viável ao norte do Mali, i.e. um porto seguro para as suas operações.

Não menos importante,

Um outro potencial objectivo do regime de Jammeh será restabelecer laços com o Irão. A reentrada do Irão na ordem global — fruto do acordo nuclear — e a sua afirmação como potência regional faz da reaproximação a Teerão uma abordagem lógica, na medida em que gera oportunidades comerciais e de investimento, bem como apoio político-diplomático de peso. Acresce ainda que Dakar restabeleceu relações com Teerão em Fevereiro de 2013, após ter posto fim às mesmas em 2011. Certamente que Jammeh não quer perder terreno para o Senegal no que respeita aos benefícios associados à normalização dos laços com o Irão.

Quando se discute a projecção internacional do Irão, importa ter em conta o papel do grupo Hezbollah, cujo principal apoiante, financiador e motor ideológico é o regime de Teerão. No que respeita à África Ocidental, empresas libanesas têm estado na linha da frente das operações do Hezbollah. Ao estar presente em economias pouco reguladas na região, estas operam como veículos de financiamento do grupo, através de actividades como a lavagem de dinheiro e tráfico ilegal de diamantes, drogas ou armas.

Existem, de facto, sinais de que Jammeh estará disposto a permitir a presença do Hezbollah e, naturalmente, do Irão. Em Junho de 2015, Jammeh reverteu a decisão de deportar Husayn Tajideen, um importador libanês de arroz e dono do maior centro comercial do país, acusado pelos EUA de garantir apoio financeiro ao Hezbollah. A isto acresce a não adesão da Gâmbia à aliança promovida pela Arábia Saudita para combater o terrorismo. Dado que essa aliança assenta, em parte, na contenção da esfera de influência iraniana no Médio Oriente, a ausência da Gâmbia poderá ser explicada pela vontade de Jammeh em não antagonizar Teerão.

Dito isto, importa ter em conta que para além de considerar o xiismo uma heresia, a monarquia saudita considera essa interpretação da fé islâmica como inseparável da política externa de Teerão. Daqui decorre a necessidade de a Arábia Saudita e outras potências árabes conterem a expansão das comunidades xiitas para outras partes do globo, neste caso para a África Ocidental.

Em suma, uma das consequências do aumento da pegada iraniana e xiita na África Ocidental será a difusão da disputa entre o xiismo e o sunismo para a região, o que a materializar-se potenciará um cada vez maior e mais frequente uso de forças proxy. Por outras palavras, promoverá a presença de grupos extremistas na região que professam as duas interpretações do islão, tendo o apoio das respectivas potências que se assumem como líderes e protectores das mesmas, isto é, dos países árabes — Arábia Saudita, Qatar e outros — e do Irão. Este é um jogo em que a mais recente República Islâmica do mundo — a Gâmbia — poderá assumir um papel de relevo.

 

Sobre Gustavo Plácido

An independent political and security risk analyst focused on Lusophone Sub-Saharan Africa. He covers Angola and Mozambique for Horizon Client Access.
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